devia ter oito, nove ou doze anos, no máximo. todo sábado ia com seus pais e o irmão caçula fazer o supermercado da semana no mercadinho holanda. era tão variado o tal do secos e molhados…se perdia sempre entre as prateleiras dos cadernos, canetas, canetinhas, papel almaço e apontadores. vez ou outra choramingava pelos itens escolhidos [sempre os mesmos!] e colocava na cestinha as mais tecnológicas novidades para serem exibidos na escola, durante a semana.
mas a melhor parte era quando chegava a hora de comprar as carnes. a mãe sempre solicitava fígado [bem fresco pra pequena que sempre tinha anemia], carnes para frituras, carnes para cozidos.. a pequena, sempre anêmica, ficava extasiada com o processo de abate dos frangos: uma-a-uma eram colocadas as tais aves, pescoço pra baixo numa máquina em movimentos circulares, o ajudante ajustava o porrete e ia quebrando os pescoços dos bichos. sem grito, sem galinhagem. parava a máquina e com uma faca bem afiada cortava todos os pescoços. o sangue escorria como trombas d’águas. correntezas de sangue para as cabidelas das pessoas com complexos de drácula. tinha mais, claro: depois de escorridos todo o líquido segregador de vida, as galináceas eram colocadas em uma panela enorme com água fervente. e, várias-à-várias, as penas eram arrancadas de seus corpos pré-pré-cozidos. e a máquina girando. e a menina feliz com lápis de cores novos na mão.
sem galinhagem
Agosto 16, 2008 por karamelosangrentomacaquinhas do zoo
Agosto 14, 2008 por karamelosangrentoZoologico Sargento Prata.
Cobras, guaxinins, gatos do mato…e os macacos.
macaco sempre chama a atenção porque é um bicho um tanto parecido com o bicho homem (ou seria o contrário?).
Tomei uma água lá perto, tirei uns dedos de prosa com o outro monitor lá, quando eu vi aquele fundunço perto da jaula.
Diabos, pensei, deve ter algum menino fazendo besteira (jogando pedra, lixo, essas coisas que se aprende em casa, com os irmaos mais velhos).
Que nada.
Os meninos e meninas estavam entretidos vendo duas macaquinhas num providencial esfrega-esfrega, digna de cena de filme pornô.
Bem,vamos às araras?
cenas toscas 1
Agosto 12, 2008 por karamelosangrentoFilme Christiane F.
Ela desesperada consegue um pico. Vai ao banheiro público imundo para se injetar quando de repente um cara pula o box, toma a droga das mãos e se injeta no pescoço.
O sangue desce vermelho e lento. Ele fecha os olhos com prazer e vai embora, não antes sem olhá-la de relance.
Ela ainda sentada no chão e as mãos vazias.
fantasias e self services
Agosto 12, 2008 por karamelosangrentoUma das minhas fantasias sexuais é entrar num daqueles moteizinhos que tem no centro da cidade.
Já imaginei a cena várias vezes: a tarde quente, o almoço comido num bom self-service, o cafezinho passado na hora, o torpor leve da cerveja bebida antes e a vontade recorrente de subir as escadas que quase sempre existem nos lugares dessa categoria.
Vou dizer até o nome do estabelecimento : Charm Motel, aquele perto do Centro Cultural Banco do Nordeste.
Ela riu.
- Sério?Perguntou.
- Sim. De verdade.
- Eu tenho uma amiga que toparia na hora, você tem a voz bonita. Ela tem o maior tesão em gente com a voz bonita. Parece que ela tem um assunto mal resolvido com esse negócio de rádio. Uma vez me disse que gozou ouvindo a Hora do Brasil, acredita?
- Acredito. Tem gente que goza dentro de ônibus, sabia?
- Tarado?
- Não, gente até bem parecida.
A outra atende. Diz que sim, pede só meia hora, parece que trabalha no centro mesmo.
Meia hora passa num instante e a menina chega com as faces coradas, o sol está a pino.
É ruiva.
Subimos as escadas. Ela atravessa o corredor correndo mas não se acanha de depois colocar a boca no meu corpo todo. Reparo que deixa borrões de batom lilás em minhas roupas e pêlos.
- Fala alguma coisa pra mim, fala…
Lembro do fato dela ter assuntos radiofônicos mal resolvidos.
- Sabe o que eu faria se o ofício existisse? Locução de trepada. Imagina que legal, ia ter trepada rápida que nem corrida de jóquei, outras seriam que nem a Hora do Brasil…
- Narra pra mim uma do tamanho da Hora do Brasil, vai…
E narrei uma de Norte a Sul. Ela, claro, louquíssima em cima de mim me untando a pele. Bem dizer me comendo com avidez de filho gordo de confeiteiro.
- E você, M., onde está?
- Assistindo a transmissão com o dedo no botão do rádio.
O que fazer dentro do ônibus.
Agosto 9, 2008 por karamelosangrentoÔnibus.
Transporte coletivo.
Condução.
Buso, cambão.
Se estiver só, aproveite o ponto morto e deixe seu corpo sentir as vibrações que atravessam o metal, o plástico. Porque elas (as vibrações) também pode chegar às suas roupas, à essa pele que te envolve.
Aproveite para olhar o movimento frenético da cidade. O ir e vir ritmado das coisas, pessoas. A vibração vai te conduzir a um prazer só seu. De preferência, não deixe ninguém perceber que você está sentindo prazer porque talvez alguém reinvidique para si o direito de senti-lo também. E, como esse momento é de autoestímulo, negue carona.
E torça pelos congestionamentos.
Como ser bem sucedido cortando os pulsos
Agosto 6, 2008 por karamelosangrentoEu nem conhecia muito bem a menina, só tinha encontrado algumas poucas vezes na rua, quase sempre com outros amigos ao redor.
O que falar dela? Parecia uma pessoa normal, daquelas que ouvem música enquanto tomam banho.
Mas não.
Logo no primeiro diálogo, me disse com uma naturalidade desconcertante como ser bem sucedido cortando os pulsos.
Nem me lembro qual assunto puxou outro, apenas me vi diante de um rosto impassível que ensinava que os cortes nos pulsos tinham que ser feitos de alto a baixo no antebraço - isso se realmente a alma atormentada em questao estivesse interessada em dar cabo à vida.
Se não estiver - e aí ela acrescentou um certo ar de desdém – se não estiver, é só cortar do modo convencional mesmo, na horizontal. É bem eficiente pra chamar a atenção.
Olhei ao redor. Engoli seco. Pedi desculpas, mas veja só, minha colega do Jardim II está logo ali!Você me dá licença?
E assim nunca mais a vi.
Quer dizer, viva, pelo menos.
Mas isso já é outra estória.